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Controlo da dor

por Hospital Veterinário do Porto em 30 de Janeiro de 2005

A dor é provavelmente um dos fenómenos de maior importância na medicina, dado que pode afectar gravemente a recuperação dos doentes e, em situações extremas, conduzir à morte.

Desde que me recordo, já nos meus tempos de estudante comentávamos, sem hesitar, que o animal sentia dor. Apesar disto, a importância clínica dada a esse facto não era significativa, o que constitui motivo de reflexão, pois se era para nós uma evidência, porque razão não era controlada? Este não é um problema exclusivamente português, sendo que, por toda a Europa, os veterinários anestesistas ainda se questionam acerca deste facto.

Assim importa fazer algumas interrogações:

Sentem os animais dor?

A primeira questão que nos devemos fazer é: O que é a dor? Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP, na sigla em inglês) a dor “é uma experiência emocional e sensorial desagradável associada com a potencial ou actual lesão tecidular”. As emoções são, regra geral, descritas pela linguagem, como algo que não está, obviamente, ao alcance de neonatos humanos, adultos “não-verbais” e a animais. No entanto, ao longo da história muito se discutiu acerca da existência de dor nos animais. Descartes assumia que se os animais não raciocinam não podiam experimentar sensações dolorosas. Verificou-se, porém, que todos os mamíferos possuem componentes neuroanatómicos e neurofarmacológicos necessários para a transdução, transmissão e percepção de estímulos nocioceptivos (estímulos dolorosos), pelo que é razoável pensar que os animais sentem dor mesmo não o conseguindo expressar verbalmente.

Tendo estes dados em atenção, a ISAP adicionou um importante ponto à definição: A impossibilidade de comunicação não nega de forma alguma a possibilidade de um indivíduo estar a sentir dor e que necessite do tratamento adequado para que tal sofrimento seja eliminado.

Tem-se discutido que a dor nos animais pode não ser exactamente o mesmo que nos seres humanos. Todavia, a verdade é que o padecimento é sempre um fenómeno subjectivo e ninguém pode sentir algo que lhe é alheio. Além disso, para a mesma lesão infligida, não parece que os humanos experimentem a mesma quantidade e intensidade de dor. O mesmo se passa com os animais. A única e grande certeza diz respeito ao facto de o animal sentir dor e que nós, médicos veterinários, temos o dever moral de controlar ou minimizar todo e qualquer sofrimento nos nossos animais.

É a dor benéfica para os animais?

Se pensarmos nos animais selvagens verificamos que é a circunstância destes sentirem a dor que os faz estar imóveis, o que permite que os tecidos lesados possam cicatrizar e regenerar com maior facilidade. A imobilidade leva a que o animal não chame sobre si a atenção de predadores. Neste ponto, referimo-nos a situações dolorosas, mas que não sejam impeditivas para a vida futura do indivíduo, uma vez que falamos de animais selvagens.

Como se manifesta a dor nos nossos animais?

A manifestação de dor nos animais é extremamente diversificada e variável de indivíduo para indivíduo. Feita a pesquisa, verificou-se que existem 274 expressões relacionadas com sinais de dor nos animais. Além das reacções de defesa e/ou tentativa de evitar o contacto com o membro afectado (nestas situações, o animal, normalmente, reage mordendo ou debatendo-se), existe um elevado número de sinais comportamentais subtis que são despoletados como resposta à dor. Muitos clínicos julgam ser capazes de reconhecer a dor nos animais, desenvolvendo muitas vezes ideias claras sobre a manifestação de dor aguda. Infelizmente, nessa percepção existe sempre um elevado grau de antropomorfismo, o que faz com que se façam associações e se pense que as manifestações de dor nos animais são iguais às dos humanos.

Os animais em sofrimento podem ter diferentes tipos de comportamento dependendo do local, severidade e tipo de dor. Existem igualmente comportamentos especificamente relacionados com a espécie e com a raça, de que podemos dar os seguintes exemplos: Os Husky Siberianos, que têm uma sensibilidade à dor muito elevada e, por outro lado, o Labrador Retriever que pode chegar a ser estóico ou apresentar uma sensibilidade muito reduzida. Nesta avaliação, temos de ter em conta o factor idade, pois sabemos que os animais mais jovens, têm mais sensibilidade à dor que os mais velhos. Os animais podem ainda alterar a sua resposta no ambiente familiar, exprimindo menos comportamentos associados à dor do que no consultório ou durante o internamento.

Todos estes factores são determinantes na escolha do protocolo analgésico adequado. Na tabela seguinte, indicamos algumas características comportamentais e fisiológicas associadas à dor nos cães e gatos.

Temperamento anormal

Agressividade ou fuga. Agressão quando se mexe na área dolorosa.

Postura anormal

Encurvamento dorsal do abdómen

Posição de reza (membros posteriores para cima e anteriores para baixo)

Posição anormal sentada ou deitada (posição fetal)

O repouso não se dá em posição normal

Marcha anormal

Rígida

Não suporta (ou suporta parcialmente) o membro afectado

Claudicação subtil é óbvia

Movimentos anormais

Inquieto

Imóvel mesmo quando não está a dormir

Vocalização

Gritos

Queixoso (intermitente, constante ou quando é tocado)

Chora (intermitente, constante ou quando é tocado)

Nada

Outras

Olhar, lamber ou morder a área dolorosa

Hiperestesia ou hiperalgésia

Alodinia

Hipersiália

Características comportamentais associadas à dor no cão e no gato, mas que também podem ser encontrados em estados de doença

Agitado/inquieto

Tremuras

Respiração ofegante

Cauda caída

Interacção diminuída com os donos

Ausência de comportamentos higiénicos (gato)

Dimuição do apetite

Ausência de movimento durante horas

Urina e defeca no local onde dorme

Sinais fisiológicos que podem estar associados com dor

Taquipneia (aumento da frequência respiratória)

Taquicardia

Pupilas dilatadas

Hipertensão

Aumento da epinefria e cortisol séricos

Existindo dor, quais os benefícios do seu controlo?

  • Evita a diminuição das defesas, pelo que o aparecimento de infecções secundárias diminui.
  • Evita atrasos de cicatrização
  • A diminuição da ingestão de água e comida não é tão acentuada
  • Permite o sono do paciente e, logo, um acréscimo de extrema importância no conforto
  • Evita o emagrecimento e a caqueixa
  • A probabilidade de auto-mutilação é muito mais reduzida
  • Diminui o tempo de internamento
  • Nos gatos evitamos problemas hepáticos secundários

Quais os métodos ao nosso dispor?

Existem muitos analgésicos seguros e eficazes no uso em cães e gatos, mas nem todos são licenciados para o uso em animais. No HVP temos ao nosso dispor uma variedade de analgésicos considerável. Usamos como agonistas puras a morfina, a petidina, o fentanil e o remifentanil. Estes fármacos são usados em casos de analgesia endovenosa, epidural e local, sendo as suas aplicações, sobretudo, em casos de dor moderada a severa.

Para dor ligeira, existem os opioides agonistas-antagonistas, tais como o butorfanol e a buprenorfina. Na prática clínica, o grande desafio é o tratamento da dor severa que acontece frequentemente em alguns tipos de intervenções, nomeadamente, craniotomias, hérnias de disco, cervicais, toracolombares e ainda em cirurgias com fracturas múltiplas. Neste tipo de intervenções, o uso de protocolos analgésicos combinados é, muitas vezes, necessário. Exemplos disso mesmo são as combinações de fármacos, opioides com ketamina e lidocaína, e ainda combinações de analgesia endovenosa com analgesia epidural. Todas estas opções variam de indivíduo para indivíduo e têm como objectivo primordial o controlo da dor e o máximo de conforto para o paciente.

Qual a importância da dor no Hospital Veterinário do Porto?

A preocupação com a dor no Hospital Veterinário do Porto tem vindo a crescer de forma exponencial nos últimos três anos. Neste período, verificámos que a quantidade e a variedade de analgésicos usados aumentou consideravelmente. Podemos afirmar, a titulo de exemplo, que, no inicio o uso da morfina aumentou cerca de 50% todos os meses. Este facto deve-se a que tanto as auxiliares, como os médicos estagiários e os próprios veterinários vão tendo uma sensibilidade cada vez maior para as vantagens do uso de analgésicos como a morfina, petidina, fentanil e remifentanil. A observação do conforto dos animais faz com que todos nós, perante o sofrimento, tenhamos de intervir e é aqui que todo o corpo auxiliar tem um papel activo, uma vez que não tolera que os animais apresentem sinais de desconforto.

No entanto, o uso de analgésicos opioides (morfina, fentanil, etc.) tem de se fazer de forma conscienciosa, e para tal é necessário termos em atenção os seguintes pontos:

  • Familiarização com os diferentes tipos de droga, com dosagens, com intervalos de tratamentos e com combinações de tratamentos que serão seguros nas diferentes condições em que os pacientes se encontram (pós cirúrgicos, politraumatizados, e todo o tipo de patologias que cursam com dor).
  • Observação cuidada dos comportamentos associados à dor e da sua resposta à terapia analgésica
  • Rotina na classificação da dor através do estabelecimento de protocolos o mais objectivos possível.
  • Ter em atenção possíveis efeitos adversos
  • Administrar doses sucessivas até atingir o efeito desejado o que faz com que nos familiarizemos com as diferentes doses para os diferentes tipos de estados dolorosos.
  • Não ter receio de utilizar diferentes tipos de protocolos, isto é, de individualizar o tratamento.
  • Promover a educação contínua de todas as pessoas que constantemente contactam com os pacientes.