in Revista Pública em 2003-01-01
Como gente ou melhor do que muita gente. Os animais de companhia contam já com uma rede alargada de cuidados médicos. Haja dinheiro para pagar as contas que nem faltam serviços de urgência permanente. Numa dessas noites, no Hospital Veterinário do Porto, encontrámos casos sérios, como o do misterioso gato baleado.
São quase 22h00 de um vulgar dia de semana. Na ampla sala de espera do Hospital Veterinário do Porto, meia dúzia de pessoas troca olhares ansiosos. Um homem levanta-se, desloca-se até ao balcão, retira um biscoito do recipiente recheado e oferece-o a uma cadela de ar sofredor. Os olhos sentados acompanham cada movimento, qual “traveling” de precisão profissional. O animal não se põe aos saltos, limita-se a abanar levemente a cauda. Ninguém lhe leva a mal, que a saúde não anda para mais.
Se o problema da cadela fosse amoroso, talvez a solução estivesse ao lado do balão de biscoitos. É que, a escassos centímetros, há uma capa de arquivo com fotografias de bichos que procuram namorada. E de bichos que procuram dono, o que é mais complicado de resolver. É o dossier da Associação dos Amigos dos Animais do Porto, que aquela unidade hospitalar apoia com uma redução de preços no tratamento dos tristes abandonados.
A atenção concentra-se agora num jovem casal que entra nas modernas instalações do hospital – desenhadas pela empresa americana de arquitectos Warren Freedenfeld – com um cão de sete meses ao colo. O rapaz explica à recepcionista que o “Elvis” estava a correr lampeiro quando caiu de um muro de dois metros. “deve ter julgado que o muro era baixo”, sugere, por entre o encolher de ombros.
É a primeira vez que Acúrcio Sousa, 28 anos, traz o seu animal de estimação ao HVP. Mora em Espinho. Por norma, leva o amiguinho de pêlo claro a uma clínica perto de casa. Soube da existência do hospital, e do seu serviço permanente de urgências, por intermédio de um veterinário da Lousada. Nada de espantar. Cerca de 50% das pessoas que ali vão parar são clientes de outros veterinários.
Do outro lado da porta larga, já depois de atravessada a zona dos quatro consultórios e o local de armazenamento de medicamentos, a veterinária Sheila Pereira parece sobretudo preocupada com um gato que lhe apareceu com um tiro enfiado na zona do abdómen. E não é para menos. Se há perfuração intestinal, espalha-se a porcaria, as bactérias começam a fazer das suas e é o cabo das tormentas. É preciso operar de urgência. A palavra de ordem é chamar o anestesista, Lénio Ribeiro, e o cirurgião de prevenção, Luis Lima Lobo.
O preto gato baleado, “Príncipe” de seu nome, está agora calmo dentro da jaula de oxigénio. Tão calmo que até faz impressão. Sinal de que o sedativo está a funcionar. Da sala de cuidados intensivos ecoa é o choro insistente de “Paco”. O pobre cão, aninhado dentro de um dos compartimentos gradeados, padece de um trauma medular agudo. “Estamos a falar de pacientes que não se resignam, eles pensam que podem fazer uma vida normal, e este é um pós-operatório muito doloroso”, explica o médico interno Hugo Carvalho. Mas o que lhe aconteceu? “O que acontece a muitos cães, os donos facilitam, passeiam os animais sem trela.” O Paco foi brutalmente atropelado há três dias, fracturou uma vértebra, teve de ser operado. Urina agora por compressão da bexiga. E, para voltar a ter uma vida completamente normal, terá de fazer fisioterapia, enuncia Hugo.
São 22h18. “Elvis” já esteve na consulta e entra agora na sala de radiologia. Hugo, na sua bata azul, acarinha o bicho, para que ele não entre em “stress” com o escurecer do quarto. A partir da chapa obtida confirma-se que Elvis tem uma fractura exposta na pata esquerda traseira. Num pequeno ecrã instalado na unidade de cuidados intensivos, pode observar-se o dono a andar às voltas. Parece inspeccionar a recepção incrivelmente limpa, apesar do adiantado da hora.
Numa das paredes do corredor – em frente do laboratório onde Paula Brilhante Simões costuma fazer as suas análises de fezes, de retrovírus (leucemia felina e imunodeficiência felina), de urina e sedimentos de urina, mas também as citologias (ouvidos, tumores de medula óssea, vaginais e derrames) – está um grande cartaz. Enumera os serviços do hospital (consulta geral, medicina interna, dermatologia, cardiologia, oftalmologia, neurologia, patologia cirúrgica, inseminação artificial, mais a cirurgia e os centros de diagnóstico, dos quais se destaca a displasia da anca, a displasia do cotovelo, a ecografia, a mielografia, a videoendoscopia e electrocardiografia). E enquanto o visitante se espanta com tais valências dignas de um qualquer hospital para seres humanos, a doutora Sheila continua com as consultas.
“Elvis” entra agora para uma jaula pela mão de uma auxiliar. “Paco”, que tem no seu “quarto” a indicação “não exercitar, doloroso”, recebe a medicação. São 22h36 e o médico Lénio Ribeiro chega com um ar ensonado. “Estava já a dormir”, conta, espreitando o seu paciente. E lá avança até ao fundo do corredor, para logo subir umas escadas, entrar na cozinha e tomar um café quente. É cedo para a anestesia, o médico cirurgião vem ainda a caminho. Aproveita para mostrar um material novo à enfermeira – tubos de oxigénio com duas abertura, inventados para uso de crianças, mas adaptáveis a felinos.
Há mais gente na sala de espera. “Durante a hora da novela ou do futebol não chega quase ninguém, depois o movimento aumenta, atinge o pico por volta da uma da manhã”, sublinha Lénio Ribeiro. Cerca da 1h00 acontece aquilo a que chama “síndroma da almofada”. É quando “o bicho, que já andava mal há uns dias e foi vendo a consulta ser adiada, não aguenta mais e desata a chorar. O dono não consegue dormir e acaba por se levantar e o trazer ao hospital”, explica. O sossego toma conta das urgências por volta das três da manhã, para o movimento recomeçar em força já lá para as oito.
“No outro dia apareceram aqui dois seguranças de uma discoteca com um animal atropelado. Estavam a sair do trabalho, viram o animal e trouxeram-no”, relata Hugo Carvalho. Conforme frisara dias antes o director do hospital, “muitas vezes a solução é a eutanásia, porque o animal está desesperado e não tem hipóteses de recuperação, mas já se chegou a ter aqui dez cães sem dono. Temos jaulas, internamento de qualidade!”, brinca, numa alusão ao protocolo com a AAAP.
Na cozinha, goza-se com o vazio da vida social de Lénio Ribeiro – o anestesista que tem de estar sempre pronto. E ele desdramatiza: “Este [‘Príncipe’] é um paciente de risco, precisa de isoflurano, a anestesia inalatória mais segura”. Se fosse uma intervenção de rotina, não seria preciso chamá-lo, explica Luis Lima Lobo, entretanto chegado.
“Hoje dei muitas altas”, enuncia Lobo. Vai começar a contar umas histórias clínicas, mas é interrompido de rompante por uma auxiliar que diz que “Elvis” se foi embora. A dra. Sheila aconselhou a operação e Acúrcio quis obter uma segunda opinião antes de optar pelo tratamento regular ou pela intervenção cirúrgica que garante uma cura mais rápida. “Ele fez o analgésico, esta noite fica a repousar em casa, aguenta-se bem até amanhã”, especifica Sheila Pereira.
Aqui, castrar um gato pode custar 20 contos e colocar uma prótese de anca 400 mil escudos. A operação do “Príncipe”, por exemplo, custará uns 57 contos. De acordo com a Ordem dos Médicos Veterinários, os preços não variam muito de uns centros de atendimento para outros. Há uma tabela elaborada pelo Sindicato Nacional de Médicos como referência. Mas é frequente os clientes quererem ouvir o veterinário assistente, antes de comprar um serviço que, por ser mais complexo, lhe vai sair caro.
O que determina as opções é a relação que as pessoas criam com os seus animais de estimação. Lénio Ribeiro lembra a história de um homem que, perante um orçamento de uma operação, se virou para ele dizendo: “Doutor, o bicho tem 13 anos” e mandou abater o animal. E logo lhe vem à memória a senhora que um dia lhe apareceu com um cão com conjuntivite; ela também tinha uma, mas ainda não tinha ido ao médico. “Punha a saúde do cão à frente da saúde dela.”
Passa já das 23h00. “Príncipe” está a ser “tranquilizado” .“O dono não sabe como é que o gato levou um tiro. Apareceu lá em casa assim, deve ter sido algum engraçado que estava numa janela a fazer mira, viu o bicho e atirou”, supõe Hugo. Enquanto o pobre gato se nota rodeado de atenções. Lobo evoca o pioneirismo do hospital ao nível de operações de cataratas, sublinha o facto de ser esta a única unidade do país a fazer prótese da anca e mostra como funciona o serviço telecardio – através do qual se fazem diagnósticos de electrocardiografia para veterinários que estão longe. São 23h40, Príncipe entra, cheio de tubos, para a sala de cirurgia. O baço do animal, agora aberto em cima da mesa, está a sangrar. Tem um furinho dos jeitosos. “Se não fosse operado agora, não chegava a amanhã. Ia ficar anémico, com o sangue todo espalhado na barriga”, informa Lobo. O bocado já inútil e mortífero é retirado. Lobo vasculha agora os intestinos ensanguentados do gato, à procura de mazelas. Há dois pequenos buracos numa nesga de tripa que é preciso cortar e cozer...
Passaram 55 minutos. O Príncipe está já com as entranhas protegidas. “Safa-se”, solta o cirurgião ao retirar, por fim, a máscara e a bata. “Viverá agora mais leve um bocado é verdade!”, brinca o homem que “não conseguiria ser médico de pessoas”. “Gosto muito de animais e gosto de ser médico, para tratar pessoas é preciso uma sensibilidade diferente”, diz.
Lobo trabalha há dez anos. Há animais que conheceu bebés, que agora são velhos. Difícil, difícil, é dizer a uma pessoa que o seu animal já não tem salvação, que está num enorme sofrimento e que o melhor é “eutanasiá-lo”. “Há pessoas que parece que estão à espera de ouvir uma coisa dessas e há outras que se atiram a nós, como se a culpa fosse nossa”, relata Sheila Pereira. É meia-noite. “Príncipe” começa a acordar da anestesia. Lá estão os tubos de soro. Uns dias de internamento e pode regressar a casa. “Paco” dorme já. No internamento de exóticos, a tartaruga “Cleópatra” esconde-se dentro da sua carcaça, reconstruída por Carla Monteiro - a médica que se dedica exclusivamente a animais de companhia que não são cães e gatos. Vá lá que o papagaio, que está com uma insuficiência renal aguda por ter ficado um fim-de-semana inteiro sem água, agora está calado.
Nas infecciosas, a pequena “Pimpinela” parece esquecida do seu problema de vísceras. Sonha talvez com a visita do dono no dia seguinte. “Yuppy” também parece esquecida da sua biópsia de pele, que lhe leva unhas e pêlo. No internamento dos animais de grande porte, nem pio.
O relógio bate uma da manhã. Luis Lobo e Lénio Ribeiro vão-se já embora. Sheila Pereira e Hugo Carvalho ficam ainda. Nas urgências, por noite, podem aparecer dez, vinte casos. Ao fim-de-semana, o movimento chega a ser 60, 70 consultas. A maior parte são cães vítimas de atropelamento ou gatos que caíram de um andar. Casos como o do “Príncipe” são raros.
Fotos: Fernando Veludo