Indicações
Indicado para reposição de células sanguíneas capazes de transportar oxigénio e, assim, manter a viabilidade dos tecidos.
É usado principalmente no tratamento de anemias normovolémicas, sejam agudas ou crónicas, sempre que não se exige um aumento da pressão oncótica. Poderá, também, usar-se em anemias hemorrágicas agudas, quando combinado com plasma, soluções colóides sintéticas ou soluções cristalóides.
- Anemias hemolíticas – hemoparasitas, tóxicos, fármacos, AHIM…
- Anemias por hemorragia sem perda de grande quantidade de sangue.
- Anemias não regenerativas.
- Cirurgias – correcção prévia da anemia ou quando se prevê grande perda de sangue intra-cirúrgica.
- Patologias da medula óssea.
- Durante ou após ressuscitações, permitindo aumentar a capacidade de oxigenação.
De uma forma geral, está indicado quando:
- Ht < 20-22 % em cães e < 12-15 % em gatos.
- Ht < 35 % nos cães ou < 25 % nos gatos sem resposta à fluidoterapia com cristalóides ou colóides.
- Ht < 35 % nos cães ou < 25 % nos gatos, juntamente com sinais clínicos: prostração, anorexia, fraqueza, taquicardia e/ou taquipneia.
Vantagens sobre o sangue inteiro:
- Evita a sobrecarga de volume em pacientes que não necessitam de proteínas ou factores de coagulação.
- Evita os riscos de reacções imunológicas contra as proteínas plasmáticas.
- Ao administrarmos apenas eritrócitos, mantemos os stocks de plasma que poderão ser necessários para outros pacientes.
Conteúdo
Eritrócitos, leucócitos, plaquetas não viáveis e um pequeno volume de plasma.
Armazenamento
Citrato fosfato dextrose acetato – 1 (CPDA - 1): cão e gato – 21 dias, 2-6º C (nunca congelar)
Solução aditiva (AS-3 ou Nutricel): cão – 5 a 6 semanas; gato – 6 semanas, 2-6 ºC
- Se permanecer à temperatura ambiente mais de 30 minutos, deverá ser usado nas 6 horas seguintes ou voltar a ser refrigerado, tendo uma validade de 24 horas.
- Aconselha-se a colocação de um termómetro dentro do frigorífico – de preferência dentro de um saco de plástico com 150 ml de água, colocado numa prateleira central; deverão realizar-se monitorizações periódicas da temperatura e regular convenientemente o termostato.
- De preferência deverá usar um refrigerador próprio para produtos sanguíneos, de forma a evitar contaminação com produtos químicos e biológicos.
- Os sacos de sangue deverão ser armazenados com algum espaço entre eles de modo a permitir a circulação de ar.
- Deverão ser colocados numa posição vertical.
- Deverão ser levemente agitados, uma vez a cada 1-2 dias, de forma a uniformizar o contacto com o anticoagulante.
- Evitar abrir demasiadas vezes o refrigerador, já que as flutuações de temperatura diminuem significativamente o tempo de vida do sangue armazenado.
Volume por unidade:
- Cão: 250ml (+/-20%)
- Gato: 25ml (+/-20%)
Administração
- Concentrado de eritrócitos canino apenas deverá ser usado em cães e o felino apenas em gatos.
- A via endovenosa usada deverá ser colocada no máximo até 24 horas antes da transfusão; se não for o caso, deveremos colocar novo cateter.
- Deverá usar-se um sistema de administração com filtro e cateter de 16-20 G.
- O concentrado de eritrócitos refrigerado deverá ser aquecido de modo a evitar hipotermia ou arritmias; coloque em “banho-maria” à temperatura de 30-35 ºC durante 20-30 minutos; não deixe sobreaquecer visto poder ocorrer hemólise a partir de 37 ºC.
- O hematócrito deverá ser analisado antes, imediatamente depois e após 24 horas da transfusão (avaliar a resposta do receptor).
- Cálculo do volume a transfundir:
Regra geral
10-15 ml/kg de concentrado de eritrócitos aumenta o Ht em 10 %.
Fórmula
Volume de administração (ml) = Peso x 88 (cão) x (Ht desejado – Ht do paciente)
66 (gato) Ht do dador
O Ht desejado é geralmente + 10 % do que o Ht actual do receptor; de uma forma geral, deverá ser de 25-30 % nos cães e 15-20 % nos gatos. O volume total transfundido deverá situar-se entre 10-22 ml/kg/dia, não devendo nunca exceder este volume em pacientes normovolémicos. Volumes superiores poderão induzir tetanias por hipocalcémias e estados de hipocoagulação.
Velocidade de administração:
- Nos primeiros 15-30 minutos a velocidade deverá ser lenta, 0,25 ml/kg/h, de modo a avaliar possíveis reacções sanguíneas. Em choque hipovolémico por hemorragias agudas não se deverá realizar esta taxa inicial mais baixa.
- Em animais normovolémicos a velocidade deverá ser de 5-10 ml/kg/h durante no máximo 4 horas.
- Em animais hipovolémicos por hemorragia poderão usar-se velocidades até 22 ml/kg/h. No entanto, poderão surgir arritmias, sendo aconselhável a monitorização através de ECG. Poderão ocorrer, também, hipocalcémias, devendo avaliar-se os valores séricos de cálcio se notamos tetanias.
- Em animais com risco de desenvolver sobrevolémia (insuficiência cardíaca, insuficiência renal, anemia hemolítica ou não regenerativa) a taxa deverá ser de 1-4 ml/kg/h, iniciando-se com a taxa mais baixa e aumentando gradualmente no caso de haver ausência de reacções (tetanias, taquipneia, dispneia, distensão das veias jugulares).
- Em casos de hemorragias activas por deficiência nos factores da coagulação, deverá ser administrado sangue inteiro a 6-10 ml/kg, BID-TID, 3-5 dias ou até controle da hemorragia.
- A via de eleição na administração do sangue é a via intravenosa, visto 100 % do sangue transfundido entrar em circulação. Em animais muito jovens ou com comprometimento circulatório poderá usar-se a via intramedular (80-95 % das células em circulação após 5 minutos); deverá introduzir uma agulha 18-20 G ou uma agulha de aspiração de medula óssea na fossa trocantérica do fémur ou no grande tubérculo do úmero. Poderá também ser usada a via intraperitoneal (50 % do sangue entra em circulação após 24 horas e 70 % após 48-72 horas; estas células sanguíneas transfundidas têm um tempo de vida mais curto).
Precauções / Contra-indicações:
- Apesar do sangue distribuído ser testado para a presença do Ag DEA 1.1, aconselha-se a realização dos testes de crossmatching maior e menor.
- Não se deverá transfundir simultaneamente lactato de ringer (na mesma via ou outra via parenteral). O fluido mais seguro será NaCl 0,9 %, mas apenas deve ser usado para fluidificar o concentrado de eritrócitos a infundir. No caso de se utilizarem soluções aditivas nas bolsas de sangue, não há necessidade de infusão simultânea de NaCl.
- Deverão ser usados sistemas de infusão com filtro; existem, também, pequenos filtros que se poderão adaptar a seringas para administrações de volumes inferiores (p. ex. em gatos).
- Apesar da tipificação sanguínea e do crossmatching realizado, poderão ocorrer reacções adversas ou sobrevolémia. Esteja igualmente atento e monitorize o animal com regularidade.
- Deverá realizar-se uma lavagem (flushing) dos cateteres com solução de NaCl antes e depois da transfusão.
- Não administre medicação parenteral na mesma via usada na transfusão.
- Deverá misturar gentilmente o conteúdo de cada saco de sangue antes de iniciar a transfusão.
- Deverá rejeitar qualquer saco de sangue danificado, com coágulos visíveis ou descoloração por hemólise.